Logo Vinícius Souza Advogados
WhatsApp

Golpe do falso advogado: o que é, como se proteger e o que fazer se for vítima

25 de Junho de 2025

Num cenário cada vez mais permeado pela desinformação e pela manipulação tecnológica, o golpe do falso advogado desponta como uma das fraudes mais complexas e insidiosas que atingem nossa região. O crime, que combina o uso de dados públicos, inteligência artificial e persuasão psicológica, cresce em sofisticação e volume, alcançando vítimas que, em muitos casos, já estão emocionalmente vulneráveis por enfrentarem processos judiciais.

A estratégia dos criminosos é arquitetada com notável precisão. O golpe se ampara no próprio funcionamento do sistema judiciário brasileiro, onde informações processuais são públicas e facilmente acessíveis. Nomes, números de processos, valores devidos, advogados constituídos – todos estes dados, ainda que públicos, são explorados como matéria-prima para uma fraude que se apresenta com aparência de total legalidade.

Trata-se de um ataque que explora não apenas falhas de segurança, mas um elemento mais profundo e humano: a confiança social depositada nas instituições jurídicas e nos profissionais do Direito.

O crime que veste toga

Os golpistas operam a partir de um padrão bem delineado. Primeiramente, identificam pessoas que têm ações judiciais em andamento, especialmente aquelas que aguardam a liberação de valores significativos – como precatórios e RPVs. A seleção das vítimas, contudo, não se limita a estas hipóteses; qualquer cidadão com demanda judicial pode se tornar alvo.

A partir daí, o contato é estabelecido de forma direta, geralmente por aplicativos de mensagens ou ligações telefônicas. O criminoso, ao se apresentar como advogado ou funcionário de um escritório jurídico, fornece dados verídicos do processo, o que cria uma ponte de credibilidade difícil de contestar.

Para solidificar a narrativa, os golpistas enviam documentos meticulosamente falsificados. Esses papéis carregam brasões da República, timbres de tribunais, supostas decisões judiciais e até cálculos por eles elaborados, apresentados como perícias contábeis. Algumas vezes, incluem assinaturas falsamente atribuídas a juízes ou servidores públicos reais, cujas identidades são indevidamente exploradas.

A engenharia da fraude é sofisticada, e a tática mais recorrente é a criação de urgência artificial: taxas de desbloqueio, impostos, emolumentos ou despesas cartorárias – pouco importa o rótulo, o fundamental é transmitir à vítima que o pagamento deve ser imediato, sob a ameaça de bloqueio dos valores ou retorno dos recursos aos cofres públicos.

As transferências, quase sempre, são solicitadas via Pix ou boletos bancários para contas de terceiros, frequentemente registradas em nome de pessoas físicas – os já conhecidos “laranjas” – ou empresas de fachada. Quando o pagamento é efetuado, o interlocutor desaparece, encerrando o contato.

A digitalização das fraudes: inteligência artificial e manipulação de imagem

Se os primeiros casos deste golpe eram baseados em argumentos bem articulados e documentos falsificados, os métodos mais recentes alcançaram um nível preocupante com o uso da inteligência artificial. Hoje, criminosos produzem vídeos manipulados, criando camadas adicionais de verossimilhança.

Não é raro que perfis de redes sociais sejam criados a partir de fotos reais de advogados ou que sites falsos, que simulam a identidade visual de escritórios legítimos, sejam utilizados para persuadir as vítimas. Trata-se de um fenômeno que se aproxima da chamada “deepfake jurídica” – o uso de imagens e vozes artificialmente construídas para atribuir autoridade indevida a golpistas.

O avanço tecnológico tem proporcionado uma espécie de corrida armamentista entre fraudadores e autoridades. À medida que uma técnica é desmascarada, outra, ainda mais complexa, ocupa seu lugar. Esta constante atualização dos golpes torna a prevenção um esforço dinâmico, coletivo e jamais definitivo.

O que fazer se for vítima?

Se, mesmo com todos os cuidados, o cidadão cair no golpe, é fundamental agir prontamente. O primeiro passo é notificar imediatamente a instituição bancária para tentar bloquear a transação ou rastrear o destino dos valores.

O próximo passo é registrar um boletim de ocorrência, munido de todas as provas possíveis: capturas de tela, números telefônicos utilizados, documentos e comprovantes de pagamento. Denunciar o número do golpista diretamente nos aplicativos, como WhatsApp, contribui para inibir novas abordagens.

Além disso, é importante comunicar o fato à OAB local, que pode auxiliar no encaminhamento da denúncia e na proteção da reputação dos advogados indevidamente envolvidos.

Como se prevenir?

Embora nenhuma ferramenta possa oferecer proteção absoluta, o conhecimento permanece como o principal instrumento de defesa. É essencial que os cidadãos estejam atentos a sinais de alerta: contatos inesperados, exigências de urgência, pedidos de pagamento antecipado via Pix e perfis digitais que, à primeira vista, parecem legítimos, mas que não resistem a uma verificação cuidadosa.

A justiça brasileira não exige depósitos prévios para a liberação de créditos judiciais. Nenhum tribunal ou advogado ético solicitará senhas, chaves de segurança ou dados bancários sensíveis por telefone ou mensagem. Diante de qualquer dúvida, a orientação é buscar atendimento presencial ou entrar em contato diretamente pelos canais oficiais do seu advogado.

O golpe do falso advogado é mais do que uma fraude: é um reflexo da vulnerabilidade que emerge quando tecnologia, desinformação e fragilidade institucional se encontram.

Plataforma ConfirmADV da OAB

A Ordem dos Advogados do Brasil (OAB) tem buscado dar respostas efetivas. Algumas seccionais, como a OAB/MG e a OAB/SP, além de outras seccionais, elaboraram cartilhas educativas com orientações práticas sobre como identificar abordagens fraudulentas e reforçaram campanhas de conscientização para reduzir o número de vítimas.

Como ferramenta tecnológica, a OAB Nacional lançou em abril de 2025 a plataforma ConfirmADV, que permite a qualquer cidadão verificar, de forma rápida e gratuita, se o advogado que realiza o contato é legítimo. O sistema envia uma notificação ao profissional consultado, que tem cinco minutos para confirmar a autenticidade da comunicação. Caso não haja resposta, ambas as partes são notificadas da falta de validação.

Conclusão

O impacto deste tipo de fraude vai além da esfera patrimonial. É um golpe que atinge a confiança da população nas instituições e nos próprios advogados – profissionais que, historicamente, são os guardiões dos direitos e garantias individuais.

Nesse contexto, a advocacia tem uma função social que transcende a defesa de causas específicas. O advogado, enquanto arquiteto das soluções jurídicas, deve assumir o papel de educador e de promotor da informação correta. A ética profissional impõe o dever de orientar, de prevenir e de proteger a sociedade diante da escalada das fraudes digitais.

A prevenção continua sendo a melhor defesa contra o golpe do falso advogado. Esteja atento, desconfie de contatos suspeitos e siga as recomendações apresentadas. Ao adotar uma postura cautelosa, você estará protegendo seus direitos e evitando prejuízos.

O presente artigo não tem a pretensão de esgotar o tema, cuja complexidade admite extensos desdobramentos e contínua atualização. É natural que, após a leitura, subsistam dúvidas ou questionamentos complementares. Persistindo dúvidas, entre em contato com um advogado de sua confiança.

Compartilhe este artigo para que mais pessoas sejam informadas e protegidas contra esse tipo de crime.

Perguntas e Respostas

© 2025 Vinícius Souza Advogados - Paraisópolis-MG.

Todos os direitos reservados. Site criado por Flypage